Tempestade perfeita: IA, tarifas e o novo roteiro dos mercados
Data de referência: 23/02/2026
O receio em torno do impacto da inteligência artificial voltou a ganhar tração após um relatório da Citrini Research delinear um cenário hipotético de disrupção econômica até 2028, combinando desemprego mais elevado entre trabalhadores de escritório, desaceleração do consumo e tensões no crédito — especialmente em segmentos ligados ao ecossistema de software. Embora o próprio texto enfatize tratar-se de um exercício de estresse, e não de uma previsão, a reação do mercado foi significativa: ações de empresas de pagamentos, tecnologia e serviços sofreram quedas expressivas, com a IBM registrando sua pior sessão em 25 anos. No centro dessa turbulência, a análise de mercado financeiro revela como narrativas de disrupção podem acelerar movimentos de aversão ao risco.
Ao mesmo tempo, o ambiente externo segue carregado por ruído comercial após a decisão da Suprema Corte sobre as tarifas de Donald Trump. A União Europeia reagiu congelando a ratificação do acordo com os EUA, enquanto a nova tarifa global de 15% entra em vigor e mantém o tema no centro do noticiário. Somam-se a isso riscos geopolíticos envolvendo o Irã, dúvidas sobre o ritmo de cortes de juros pelo Fed e a agenda intensa da semana — com o discurso do Estado da União e balanços corporativos relevantes no radar.
Apesar da realização recente, os futuros em Nova York ensaiam leve recuperação, enquanto as bolsas asiáticas exibem desempenho misto na volta do feriado. O petróleo negocia próximo de US$ 72 e o Bitcoin recua.

Brasil: emprego formal x custo estrutural
No Brasil, após a renovação de máximas no fim da semana passada, o Ibovespa passou por uma realização parcial de lucros na segunda-feira, em linha com o mau humor observado no exterior. O movimento, no entanto, não foi uniforme. O dólar voltou a perder força globalmente e também frente ao real, encerrando o dia em R$ 5,16 — o menor nível desde maio de 2024 —, o que ajudou a manter o ambiente doméstico relativamente mais equilibrado. Na agenda econômica, a atenção se volta para a temporada de resultados corporativos e, sobretudo, para os dados de inflação e emprego previstos para sexta-feira, que podem influenciar as expectativas para a política monetária. Indicadores como arrecadação federal e dados externos também estão no radar.
Em Brasília, ganha tração a discussão da PEC que propõe o fim da escala 6×1, cujo relator na CCJ deve ser o deputado Paulo Azi (União-BA). O tema se insere em um ambiente político sensível: é visto como uma das bandeiras do governo para 2026, mas enfrenta resistências no Congresso. Em paralelo, parlamentares articulam uma possível nova desoneração da folha como forma de compensar o aumento de custos às empresas — proposta que, embora busque mitigar impactos sobre o setor produtivo, traz questionamentos relevantes do ponto de vista fiscal.
O ponto central da discussão, contudo, vai além da escala 6×1 em si. O desafio estrutural do Brasil não deveria ser o de reduzir a jornada formal, mas ampliar o mercado de trabalho formal. No fim do ano passado, a população ocupada estava distribuída aproximadamente da seguinte forma: 40,8 milhões de trabalhadores com carteira assinada (CLT); 10,5 milhões entre conta própria e empregadores; cerca de 38,7 milhões na informalidade; e aproximadamente 13 milhões no setor público. Ou seja, o contingente informal é praticamente do mesmo tamanho do universo formal privado. Essa é a verdadeira distorção que qualquer análise de mercado financeiro precisa considerar ao avaliar riscos fiscais e de consumo.
O trabalhador formal é quem sustenta a arrecadação que financia o Estado — inclusive políticas que alcançam quem está fora da formalidade. O esforço estrutural deveria, portanto, concentrar-se em ampliar a base formal, reduzindo encargos, simplificando regras e incentivando a transição do informal para o formal. Reformas nessa direção — como a modernização trabalhista realizada no governo Temer e, em escala mais radical, o programa atual promovido por Javier Milei na Argentina — apontam para um caminho de redução de distorções, enxugamento da máquina pública e fortalecimento da iniciativa privada como motor de geração de emprego. O efeito fiscal tende a ser positivo: mais formalização amplia a arrecadação sem elevar alíquotas, o que, no limite, abre espaço até para redução da carga tributária.
Digerindo um cenário catastrófico
Ontem observamos uma realização quase generalizada nos mercados, com destaque para as ações de tecnologia, após a ampla repercussão do relatório da Citrini Research divulgado no fim de semana, intitulado “A Crise Global de Inteligência de 2028”. O texto constrói um cenário duro: a inteligência artificial avançaria de forma acelerada, substituiria parcela relevante dos trabalhadores de escritório, pressionaria modelos de negócios de empresas de software e instituições financeiras, reduziria renda e consumo e, no limite, poderia culminar em uma crise sistêmica até o fim da década.
Como exercício de estresse e construção de cenário extremo, a narrativa é intelectualmente atraente. No entanto, o relatório trata diferentes etapas — adoção tecnológica, reorganização corporativa, adaptação de infraestrutura, impacto sobre lucros e reprecificação de ativos — como se ocorressem de maneira quase simultânea e automática. Na prática, essas transições costumam ser graduais, permeadas por fricções. Para uma análise de mercado financeiro equilibrada, é essencial distinguir choque imediato de transformação estrutural.

Mercado sob pressão e incerteza comercial
Para além da questão tecnológica, a disputa comercial voltou a ocupar o centro das atenções nos mercados globais. Depois do alívio inicial observado na sexta-feira, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegais parte das tarifas impostas anteriormente, o sentimento mudou rapidamente.
Na segunda-feira, Wall Street reagiu negativamente à confirmação de uma nova tarifa global de 15%, movimento que reacendeu as incertezas sobre os próximos passos da política comercial americana. Assim, nesse contexto, os investidores passaram a dividir a atenção entre diferentes frentes. De um lado, a temporada de resultados corporativos ganha peso — com destaque especial para os números da Nvidia, dada sua relevância para o setor de tecnologia e para o tema de inteligência artificial.
O mercado rapidamente transitou do alívio inicial para um ambiente de maior cautela após a Suprema Corte invalidar parte das tarifas impostas por Trump com base em poderes de emergência. Embora o representante comercial Jamieson Greer da Casa Branca tenha afirmado que os acordos firmados permanecem válidos e que o governo dispõe de outros instrumentos, a resposta foi imediata: Trump anunciou uma tarifa global “temporária”, elevando-a de 10% para 15%, e sinalizou a possibilidade de novas medidas. O resultado foi um aumento perceptível da imprevisibilidade. A União Europeia decidiu congelar a ratificação do acordo comercial com os Estados Unidos enquanto busca esclarecimentos, diante da percepção de que as novas tarifas podem contrariar entendimentos previamente firmados.
Europa e Japão: sucessões e política monetária
Na Europa, uma possível saída antecipada de Christine Lagarde da presidência do Banco Central Europeu antes do fim de seu mandato, em outubro de 2027, pode alterar o tabuleiro da sucessão no BCE. Uma transição antecipada daria espaço para que Emmanuel Macron tenha influência no processo antes das próximas eleições francesas. Já no Japão, dúvidas sobre o ritmo de novos aumentos de juros ganharam força após relatos de que a primeira-ministra Sanae Takaichi teria expressado preocupação com um aperto monetário adicional em conversa recente com o presidente do BoJ, Kazuo Ueda. A reação foi imediata: o iene se desvalorizou cerca de 1%.
Repensando a segurança europeia e o papel dos ativos de proteção
Pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, capitais europeias voltaram a discutir, de forma mais explícita, a necessidade de desenvolver capacidades próprias de dissuasão nuclear. O ponto de inflexão ocorreu em março, quando os Estados Unidos interromperam temporariamente o compartilhamento de informações de inteligência com a Ucrânia, levando aliados a confrontar uma hipótese antes impensável: a de que Washington possa não ser um parceiro militar tão previsível quanto no passado.
Essa inquietação permeia fóruns como a Conferência de Segurança de Munique e se soma ao receio de que Kiev possa ser pressionada a aceitar uma “capitulação disfarçada”. A consequência para os mercados é conhecida: em ambientes marcados por incerteza geopolítica, cresce a busca por ativos mais seguros — movimento que já se reflete na alta do ouro e na valorização de moedas refúgio.
Este resumo não é recomendação de investimento. Consulte seu Advisor.

Deixe um comentário